A revolução dos medicamentos que estão mudando a relação entre peso, metabolismo e longevidade
Na minha rotina como oncologista, acompanho muitas mulheres que venceram o câncer de mama, mas continuam enfrentando outra batalha silenciosa: o próprio metabolismo.
Muitas delas entram precocemente na menopausa por causa da quimioterapia e da hormonioterapia. E, junto com isso, vêm ondas de calor, alterações do sono, perda de massa óssea, redução da libido, alterações emocionais… e um dos problemas mais difíceis de todos: o ganho de peso.
O que muita gente não entende é que esse ganho de peso não é apenas uma questão estética.
O excesso de gordura corporal — especialmente a gordura visceral, aquela que se acumula dentro do abdômen — funciona como um verdadeiro centro de inflamação do organismo. Ela altera hormônios, piora a resistência à insulina e cria um ambiente metabólico que acelera o envelhecimento biológico.
E existe uma verdade desconfortável que aprendi ao longo dos anos: força de vontade nem sempre vence a fisiologia.
Tenho uma paciente muito querida que representa bem isso.
Ela recebeu o diagnóstico de câncer de mama aos 33 anos. Entrou na menopausa logo no início da quimioterapia. É disciplinada, inteligente, faz dieta corretamente, pratica atividade física todos os dias e leva a saúde a sério.
Ainda assim, enfrenta enorme dificuldade para controlar o peso.
Seu IMC gira em torno de 26. Não é uma paciente com obesidade grave. Mas tanto ela quanto eu sabemos o que existe por trás desse número: gordura visceral, inflamação silenciosa e um metabolismo trabalhando contra ela.
Foi justamente tentando entender casos como o dela que a medicina começou a mergulhar mais profundamente nos mecanismos que regulam a fome, a saciedade e o armazenamento de energia.
E dessa busca nasceu uma das maiores revoluções da medicina metabólica moderna.
Uma revolução que envolve cientistas brilhantes, décadas de ceticismo… e até um lagarto venenoso do deserto americano.
Uma descoberta esquecida por quase 80 anos
A história começou muito antes do Ozempic ou do Mounjaro existirem.
Em 1906, pesquisadores da Universidade de Liverpool descobriram que certas substâncias produzidas no intestino eram capazes de reduzir a glicose no sangue. Eles chamaram essas substâncias de “incretinas”.
Era uma descoberta promissora.
Mas havia um problema: pouco tempo depois surgiu a insulina — e ela parecia resolver praticamente tudo.
As incretinas acabaram esquecidas.
Por quase oitenta anos.
Foi apenas na década de 1980 que a história começou a mudar.
Um endocrinologista chamado Joel Habener, do Massachusetts General Hospital, estava estudando peixes para entender melhor o metabolismo do glucagon. Pode parecer estranho, mas nos peixes as células pancreáticas ficam mais fáceis de isolar.
Durante essas pesquisas, ele identificou uma substância até então desconhecida.
Essa molécula recebeu o nome de GLP-1.
Pouco depois, a pesquisadora Svetlana Mojsov demonstrou algo fundamental: o GLP-1 era produzido em grande quantidade no intestino e estimulava a produção de insulina.
Finalmente, a medicina começava a entender um sistema natural do próprio corpo capaz de regular fome, glicose e metabolismo.
Mas havia um obstáculo importante.
O GLP-1 natural durava muito pouco tempo na circulação.
Em cerca de um ou dois minutos ele já era destruído pelo organismo.
Na prática, isso inviabilizava seu uso como medicamento.
O lagarto que ajudou a mudar a medicina
É aqui que a história fica ainda mais interessante.
Enquanto alguns pesquisadores tentavam modificar artificialmente o GLP-1 para torná-lo mais duradouro, outro cientista seguia um caminho completamente diferente.
John Eng estudava peptídeos presentes na saliva do Gila Monster — um lagarto venenoso do sudoeste dos Estados Unidos.
E foi justamente nesse animal improvável que ele encontrou uma substância muito parecida com o GLP-1 humano.
Mas com uma diferença decisiva: ela resistia muito mais tempo dentro do organismo.
Ou seja: ela poderia funcionar como medicamento.
Dessa descoberta nasceu a exenatida, aprovada em 2004.
Foi o primeiro grande passo.
Enquanto isso, a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk continuava investindo pesado no desenvolvimento de versões mais modernas e eficientes.
Uma das cientistas centrais dessa história foi Lotte Knudsen.
Ela acreditava em algo que muita gente ainda não enxergava: essas drogas não serviriam apenas para tratar diabetes.
Elas também poderiam transformar o tratamento da obesidade.
Com o tempo, sua equipe conseguiu desenvolver moléculas cada vez mais estáveis.
Entre elas, a semaglutida — substância que se tornaria mundialmente conhecida através do Ozempic e do Wegovy.
O momento em que tudo mudou
Durante muito tempo, muita gente enxergou essas medicações apenas como “remédios para emagrecer”.
Mas os estudos mais recentes mostram algo muito maior.
No estudo STEP 1, publicado no New England Journal of Medicine em 2021, pacientes com sobrepeso e obesidade perderam, em média, quase 15% do peso corporal usando semaglutida.
Isso já era impressionante.
Mas o verdadeiro divisor de águas veio depois.
Em 2023, o estudo SELECT avaliou mais de 17 mil pacientes com doença cardiovascular e excesso de peso.
O resultado chamou atenção do mundo inteiro: os pacientes tratados com semaglutida tiveram redução de 20% no risco de morte cardiovascular, infarto e AVC.
Vale a pena parar um momento para entender a dimensão disso.
Não estamos falando apenas de uma medicação que ajuda a emagrecer.
Estamos falando de uma droga capaz de interferir diretamente em processos ligados ao envelhecimento biológico.
Porque obesidade não é apenas peso.
Obesidade é:
• inflamação crônica,
• resistência à insulina,
• piora vascular,
• alteração hormonal,
• aceleração do envelhecimento.
E os agonistas do GLP-1 atuam justamente em vários desses pontos ao mesmo tempo.
Eles ajudam a:
• reduzir gordura visceral,
• melhorar o metabolismo,
• diminuir inflamação,
• controlar glicose,
• melhorar a saciedade,
• e proteger o sistema cardiovascular.
Poucas vezes na história da medicina uma única classe de medicamentos conseguiu impactar tantos mecanismos relacionados ao envelhecimento simultaneamente.
O Mounjaro e a próxima geração dessa revolução
Mais recentemente surgiu uma nova medicação que vem chamando ainda mais atenção: a tirzepatida, conhecida comercialmente como Mounjaro.
Ela atua de forma diferente.
Enquanto a semaglutida age principalmente em um sistema metabólico, a tirzepatida ativa dois sistemas naturais do organismo ao mesmo tempo.
Na prática, isso significa uma ação ainda mais potente sobre fome, saciedade, metabolismo e controle energético.
O estudo SURMOUNT-1, publicado em 2022 no New England Journal of Medicine, mostrou resultados impressionantes.
Pacientes obesos perderam entre 15% e 21% do peso corporal.
Além disso, houve uma redução muito significativa da gordura corporal total.
Mas existe um detalhe importante que considero fundamental: essas drogas não substituem mudança de estilo de vida.
Elas criam condições biológicas mais favoráveis para que o paciente consiga fazer aquilo que antes parecia impossível.
A alimentação continua importante.
A ingestão adequada de proteínas continua importante.
O exercício físico continua indispensável.
A diferença é que, agora, muitos pacientes conseguem finalmente lutar sem ter o próprio corpo sabotando o processo o tempo inteiro.
De volta à minha paciente
Minha paciente vem usando tirzepatida.
Além da perda de peso, ela passou a tolerar melhor o tratamento hormonal.
Os efeitos colaterais diminuíram.
Sua disposição melhorou.
Mas existe algo que nenhum estudo consegue medir completamente: ela recuperou autoestima.
E aqui entra um ponto extremamente importante.
Medicina de longevidade não é trabalhar apenas números.
É trabalhar autonomia.
É permitir que a pessoa volte a sentir que possui controle sobre o próprio corpo e sobre a própria vida.
Também acredito profundamente na individualização do tratamento.
Uma paciente brasileira de 72 kg é biologicamente diferente de uma paciente americana de 110 kg.
Dose, tempo de tratamento e objetivos precisam ser ajustados individualmente.
Mais medicação nem sempre significa mais benefício.
Às vezes significa apenas mais custo e mais efeitos colaterais.
O capítulo que ainda está sendo escrito
Os chamados agonistas do GLP-1 representam provavelmente um dos maiores avanços farmacológicos das últimas décadas.
Mas é importante entender: eles não são medicamentos “milagrosos”. São ferramentas poderosas.
Quando usados de forma responsável, individualizada e acompanhados por mudanças reais no estilo de vida, podem produzir benefícios concretos para:
• metabolismo,
• peso,
• saúde cardiovascular,
• inflamação,
• envelhecimento biológico,
• e longevidade.
A história começou em Liverpool, em 1906.
Passou pelo laboratório de cientistas brilhantes.
Atravessou décadas de dúvidas.
E chegou até a saliva de um lagarto venenoso no deserto americano.
E talvez o mais interessante seja justamente isso: essa história ainda está só começando.
Referências
1. Friedman JM. The discovery and development of GLP-1-based drugs that have revolutionized the treatment of obesity. PNAS. 2024;121(39):e2415550121.
2. Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al.; STEP 1 Study Group. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. N Engl J Med. 2021;384(11):989–1002.
3. Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, et al.; SELECT Trial Investigators. Semaglutide and cardiovascular outcomes in obesity without diabetes. N Engl J Med. 2023;389(24):2221–2232.
4. Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al.; SURMOUNT-1 Investigators. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. N Engl J Med. 2022;387(3):205–216.
5. Malhotra A, Grunstein RR, Fietze I, et al.; SURMOUNT-OSA Investigators. Tirzepatide for the treatment of obstructive sleep apnea and obesity. N Engl J Med. 2024.

