Dormir Menos Sem Adoecer

Por Dr. Volney Soares Lima
Publicado em 11 maio, 2026
Processos importantes ocorrem quando estamos dormindo: regulação da pressão arterial, reparo celular, consolidação da memória e limpeza de metabólitos indesejáveis no sistema nervoso.
Dormir menos sem adoecer: o que uma rara mutação genética nos ensina sobre o sono e a longevidade.

Dormir menos sem adoecer: o que uma rara mutação genética nos ensina sobre o sono e a longevidade.

A ciência já reconhece a qualidade de sono como um dos pilares da longevidade. O ideal é que as pessoas durmam algo entre 6-8 horas e apresentem um sono de qualidade. Processos importantes ocorrem quando estamos dormindo: regulação da pressão arterial, reparo celular, consolidação da memória e limpeza de metabólitos indesejáveis no sistema nervoso.

A privação do sono é muito comum na sociedade moderna. Estima-se que cerca de 1/3 da população apresente algum grau de distúrbio na duração do sono.

A privação do sono aguda pode ser definida como a redução do tempo total normal de sono durante 1 a 2 dias e o estado de vigília por mais de 16 a 18 horas em um ciclo de 24 horas. É o que acontece comigo em voos longos. Ocorre redução da capacidade de concentração, redução da memória de trabalho e capacidade de aprendizado. Silenciosamente seu cortisol aumenta e a síntese proteica é reduzida. Se a privação persiste por mais horas, o cérebro começa a buscar compensações imediatas: você come mais, toma decisões impulsivas, tem menos paciência e mais vontade de recompensas rápidas. Não é falta de força de vontade — é biologia respondendo à falta de sono.

A privação crônica do sono refere-se a dormir menos do que o ideal por um período prolongado ( pelo menos 3 meses) e costuma ser bastante deletéria ao nosso organismo. Além dos danos cognitivos, a privação do sono está associada a resistência a insulina, elevação da pressão arterial, dislipidemia e redução da atividade do sistema imune. A maior parte dos dados apontam que os distúrbios do sono são um dos fatores de risco mais importantes para o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer.

Algumas pessoas contudo, mesmo dormindo bem menos do que é recomendado, não apresentam as consequências negativas da privação do sono em seu organismo. São os chamados natural shorter sleepers ou short sleeper syndrome. São indivíduos que não precisam de despertador para acordar, dormem rapidamente quando vão para a cama, se sentem bem e com muita energia mesmo após poucas horas de sono. Normalmente esses sinais se manifestam na infância ou adolescência.

A short sleep syndrome é rara e não é considerada uma patologia ou um distúrbio do sono. Ela tem origem genética e as principais mutações têm sido descritas. A primeira mutação foi descrita em 2009, no gene DEC2. Atualmente sabe-se que outras 3 mutações estão associadas a essa síndrome: ADRB1, NPSR1 e GRM1.

Na minha opinião, de todos os fatores que impactam na longevidade o sono é o mais difícil de modificar. É também aquele que, atualmente, as pessoas mais deixam de lado. Fazer atividade física e se alimentar de forma adequada é sabidamente importante, mas não dormir bem afetará em muito sua qualidade de vida nos próximos anos e aumentará seu risco de desenvolver doenças neurodegenerativas terríveis.

O reconhecimento, pela ciência, dos shorter sleepers é muito relevante pois estudar quem dorme pouco sem sofrer consequências nos ensina, por contraste, o que o sono realmente faz pelo organismo.

As mutações dos short sleepers funcionam como uma espécie de “experimento natural” — elas revelam os mecanismos biológicos do sono de uma forma que nenhum estudo científico conseguiria reproduzir eticamente.

A mutação DEC2, por exemplo, mostra que o relógio circadiano pode ser recalibrado geneticamente — o que abre portas para entender distúrbios circadianos como insônia crônica e síndrome da fase do sono atrasada. Mais interessante ainda: portadores dessa mutação têm menor acúmulo de proteínas beta-amiloide e tau — sugerindo que o sono eficiente pode ser neuroprotetor contra Alzheimer.

A maioria de nós não carrega essas mutações genéticas raras. Mas todos nós temos uma biologia que pode ser trabalhada e organizada.

Quando o sono é ajustado com consistência, o organismo reage: a inflamação recua, o metabolismo se estabiliza, a memória consolida, o humor equilibra.

Os natural short sleepers nos ensinam o que o sono faz pelo organismo quando ele funciona bem. A diferença é que eles chegaram lá pela genética. Nós chegaremos lá por nossas escolhas.

 

Referências
  • Liew SC, Aung T.
    Sleep deprivation and its association with diseases—a review.
    Sleep Med. 2021;77:192–204.

  • Krause AJ, Ben Simon E, Mander BA, et al.
    The sleep-deprived human brain.
    Nat Rev Neurosci. 2017;18(7):404–418.

  • Han Z, Yang X, Huang S.
    Sleep deprivation: A risk factor for the pathogenesis and progression of Alzheimer’s disease.
    Heliyon. 2024;10(7):e28819.

  • Gu H.
    Genetic Mechanisms of Natural Short Sleep: A Review of DEC2, ADRB1, NPSR1, GRM1 Mutations and Recommended Testing for Chronic Health Implications.
    Preprints.org. 2024.

  • He Y, Jones CR, Fujiki N, et al.
    The transcriptional repressor DEC2 regulates sleep length in mammals.
    Science. 2009;325(5942):866–870.

Este texto não constitui recomendação médica e representa a opinião do autor com base nos artigos científicos citados nas referências.
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Autor

Dr. Volney Soares

Dr. Volney Soares Lima

CRM-MG 33029 | Oncologia Clínica RQE 15235

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