Uma nova opção para insônia: melhor do que o que temos hoje?
A insônia é um dos temas mais relevantes quando pensamos em viver mais e com qualidade. Os distúrbios do sono estão associados a um maior risco de doenças que comprometem a autonomia — como a demência. O mundo gasta anualmente mais de 100 bilhões de dólares com a insônia, e grande parte desse custo é indireto: a pessoa com insônia produz menos, ganha menos, vai mais ao médico e faz mais exames.
Tratar a insônia é ao mesmo tempo extremamente importante e um grande desafio.
Eu também não durmo bem e sei como isso é ruim. Como médico, sou adepto de tratamentos não medicamentosos como primeira alternativa. No meu caso, o canabidiol medicinal ajudou bastante. A melatonina, quando usada de forma correta, também tem uma ótima relação risco/benefício. Mas cada pessoa se comporta de uma forma, tem uma biologia diferente, e muitas vezes uma mudança de hábitos resolve o problema. Talvez o maior erro não seja usar medicação para dormir — mas tratar a insônia sem entender o que realmente está por trás dela.
Na minha rotina clínica, vejo que o número de pessoas que recebem medicamentos para insônia é enorme e que muitas vezes isso poderia ter sido evitado. Retirar uma medicação dessas, uma vez iniciada, não é nada fácil.
Depois de anos atendendo pacientes oncológicos e acompanhando os efeitos do sono ruim na recuperação e na qualidade de vida, algumas coisas ficaram claras para mim. A primeira é que a insônia precisa ser reconhecida como um problema real — e tratada de forma adequada e personalizada, não com uma receita genérica. A segunda é que não basta contar horas dormidas: a arquitetura do sono, ou seja, a qualidade das fases do sono, é igualmente importante. E a terceira é que tratar insônia isoladamente, sem olhar para o contexto de vida do paciente, é como tratar o sintoma e ignorar a doença.
É dentro desse cenário que surge uma novidade farmacológica que merece atenção: o lemborexante. Trata-se de um medicamento com mecanismo de ação diferente de tudo o que usamos até agora para tratar insônia. Em breve estará disponível nas farmácias brasileiras. Mas antes de qualquer entusiasmo, vale entender como ele funciona e o que os estudos mostram de fato.
Para entender o lemborexante, é preciso entender as orexinas. Existem dois tipos — a Orexina A e a Orexina B — ambas produzidas exclusivamente por um pequeno grupo de neurônios no hipotálamo. Após produzidas, elas atuam em vários pontos do cérebro, ligando-se a receptores chamados OX1R e OX2R. A função principal das orexinas é estimulatória: elas provocam excitação e despertar.
O lemborexante é um bloqueador duplo e reversível desses receptores. De forma simples: ele fecha a porta por onde a orexina entra na célula nervosa, fazendo com que esse peptídeo estimulante deixe de exercer seu efeito. É como desligar um dos principais sinais de alerta do organismo.
Em muitas pessoas com insônia, especialmente aquelas que acordam no meio da noite e não conseguem voltar a dormir, esse sistema de orexinas pode estar hiperativo. Bloquear sua ação permite que o cérebro faça a transição para o sono de forma mais natural, sem induzir uma sedação difusa como ocorre com outras medicações. Essa diferença é importante: o lemborexante não derruba o paciente — ele reduz o estímulo que mantém o cérebro acordado.
Quando surge uma nova droga, o médico precisa fazer uma análise crítica dos estudos que motivaram sua aprovação. Não basta o marketing.
O primeiro grande estudo de fase III foi publicado em 2019 e avaliou cerca de mil pacientes com mais de 55 anos e diagnóstico estabelecido de insônia, em centros da América do Norte e da Europa. Os pacientes foram divididos em quatro grupos: placebo, zolpidem 6,25 mg, lemborexante 5 mg e lemborexante 10 mg, por um período de um mês. Todos foram avaliados por polissonografia no início e no final do tratamento — e esse é um ponto importante, porque polissonografia é dado objetivo, não questionário.
Os resultados mostraram que o lemborexante melhorou de forma significativa tanto o início quanto a manutenção do sono em comparação ao placebo e ao zolpidem. Na prática, os pacientes dormiam mais rápido e acordavam menos durante a noite. Um achado que me chamou a atenção foi a melhora na segunda metade da noite — justamente o período em que muitos pacientes com insônia têm mais dificuldade. Quanto à segurança, o perfil foi favorável: a incidência de efeitos adversos foi semelhante à do placebo e inferior à do zolpidem.
Esse estudo foi bem conduzido e desenhado para atender às exigências das agências regulatórias. Porém, um mês de tratamento é muito pouco para avaliar tolerância, perda de eficácia ou toxicidade de longo prazo. A droga se mostrou eficaz — mas ficaram perguntas no ar.
Para tentar responder parte dessas perguntas, pesquisadores japoneses publicaram em 2020 os resultados de um segundo estudo de fase III com 949 pacientes. A duração total foi de 12 meses, embora a comparação controlada com placebo tenha se limitado aos primeiros seis meses. Diferentemente do estudo anterior, a avaliação de eficácia foi baseada em dados subjetivos — diários de sono preenchidos pelos próprios pacientes — e não em polissonografia.
Mesmo com essa limitação metodológica, os resultados foram consistentes. O lemborexante reduziu o tempo que os pacientes levavam para adormecer, diminuiu os despertares noturnos e aumentou a eficiência do sono. Esses efeitos apareceram já na primeira semana e se mantiveram ao longo dos seis meses de comparação com placebo. Os pacientes também relataram melhora na qualidade subjetiva do sono e no estado de alerta pela manhã.
Um dado que pode parecer modesto à primeira vista: o ganho médio de sono foi de cerca de 20 minutos por noite. Mas quando esse tempo vem acompanhado de menos despertares e melhor continuidade do sono, o impacto na qualidade do descanso é real. Quem já perdeu o sono no meio da noite e ficou olhando para o teto por duas horas sabe que 20 minutos a mais de sono contínuo valem muito mais do que parecem.
O efeito colateral mais comum foi a sonolência no dia seguinte, principalmente na dose de 10 mg. Para minimizar isso, recomenda-se garantir pelo menos sete a oito horas de tempo dedicado ao sono — o que, convenhamos, já deveria ser o padrão.
O ponto forte desse estudo foi avaliar a droga por um período mais compatível com a realidade clínica. Porém, quando falamos de longevidade, até um ano é pouco. Quais serão os efeitos dessa medicação nos índices de demência a longo prazo? Essa pergunta ainda não tem resposta.
O lemborexante foi aprovado nos Estados Unidos em 2019 e na Europa em 2020. Com o aumento do uso, começaram a surgir dados de prática clínica real — e esses dados me interessam tanto quanto os ensaios clínicos, porque mostram como a droga se comporta fora do ambiente controlado de um estudo.
Os estudos observacionais, conduzidos principalmente no Japão, confirmam a eficácia e a segurança da medicação em populações mais heterogêneas, incluindo pacientes com comorbidades psiquiátricas e uso prévio de outros hipnóticos. Em alguns casos, houve redução no uso concomitante de benzodiazepínicos — o que, para mim, é um dado muito relevante.
Como oncologista, convivo diariamente com pacientes em uso crônico de benzodiazepínicos — na grande maioria das vezes iniciados por outro profissional. A possibilidade de trocar por uma medicação com melhor perfil de toxicidade é algo que desperta meu interesse genuíno.
No Brasil, o lemborexante recebeu aprovação da Anvisa em 2025, mas ainda não está amplamente disponível. A comercialização depende da definição de preço e da estratégia de lançamento pela empresa detentora do registro.
Acredito que o tratamento da insônia deve ser individualizado — e, nesse ponto, a leitura que o médico faz do paciente é o fator mais importante. A primeira medida terapêutica deve ser a terapia cognitivo-comportamental. O problema é que muitos pacientes não têm acesso a uma terapia bem-feita, e alguns simplesmente não irão responder ao tratamento não medicamentoso.
A chegada do lemborexante ao arsenal terapêutico é bem-vinda. Estávamos há quase uma década sem o surgimento de uma nova classe farmacológica relevante para a insônia. Os dados sugerem que ele é superior às opções que temos hoje em termos de eficácia e segurança. Espero que seja usado com critério e quando for realmente necessário.
Dormir melhor é uma das melhores coisas que podemos fazer para preservar a autonomia ao longo da vida.
Referências
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Insomnia and cognitive behavioural therapy—how to assess your patient and why it should be a standard part of care.
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