Gratidão e longevidade: o que quase cinquenta mil enfermeiras revelam sobre viver mais.
Um grande estudo de Harvard, publicado em 2024, sugere que pessoas mais gratas vivem mais e morrem menos do coração. Antes de transformar isso em conselho de autoajuda.
Na minha rotina como oncologista convivo diariamente com pessoas que acabaram de receber a pior notícia da vida. E, ao longo dos anos, aprendi a reparar em uma reação que a princípio me parecia contraditória. Alguns pacientes, mesmo diante do diagnóstico, mantêm uma capacidade quase teimosa de agradecer. Agradecem pela família, por um dia de sol, pela consulta que correu bem, por estarem vivas para lutar. Durante muito tempo tratei isso como temperamento, uma questão de personalidade. Até começar a me perguntar se essa disposição de ser grato não estaria, de algum modo silencioso, escrevendo alguma coisa no corpo desses pacientes. Foi essa curiosidade de consultório que me levou a um estudo publicado em 2024 na revista JAMA Psychiatry.
Gratidão não é dizer obrigado
Antes de chegar aos números, preciso desfazer um mal-entendido, porque ele muda tudo. Quando a ciência fala em gratidão, não está falando da cortesia de agradecer um presente. Os pesquisadores separam dois sentidos diferentes. Existe a gratidão dirigida, aquela que sentimos por alguém que nos fez um favor. É pontual, interpessoal, o obrigado de todo dia. E existe a gratidão disposicional, que é uma tendência de fundo a perceber e valorizar o que há de bom na vida, mesmo quando não existe um benfeitor específico para agradecer. Essa segunda é quase uma lente, um jeito de enxergar a própria existência. É ela que os estudos medem, com um questionário validado de seis itens que avalia o quanto a pessoa concorda com frases como “tenho muito na vida pelo que ser grato”. Faço questão dessa distinção logo no começo porque, em português, a palavra gratidão é mais relacionada ao ato de dizer obrigado. Mas a gratidão que interessa à ciência da longevidade não é a boa educação. É a lente.
O que mostrou o estudo com quase cinquenta mil enfermeiras
O trabalho que me chamou a atenção foi conduzido por Ying Chen e colegas da Escola de Saúde Pública de Harvard, a partir de uma das bases de dados mais respeitadas da medicina, o Nurses Health Study. Os pesquisadores acompanharam 49.275 enfermeiras americanas mais velhas, todas com boa saúde no ponto de partida. Em 2016 elas responderam ao tal questionário de gratidão e foram seguidas até o fim de 2019. Ao longo desse período ocorreram 4.608 mortes. A pergunta era direta. Quem era mais grato morreu menos?
A resposta foi sim. As enfermeiras que estavam no terço mais grato tiveram um risco de morrer por qualquer causa cerca de 9% menor do que as do terço menos grato. Pode parecer pouco, mas lembre que estamos falando de mortalidade por todas as causas, um desfecho duro, e que o número resistiu a um ajuste rigoroso. Os autores descontaram renda, escolaridade, participação social, envolvimento religioso, saúde física, hábitos de vida, função cognitiva e até a saúde mental das participantes. Ou seja, não é o caso de dizer que as mais gratas viviam mais simplesmente porque eram mais ricas, mais saudáveis ou menos deprimidas de saída. Havia ainda um detalhe que me interessou como oncologista voltado ao coração e ao metabolismo. A associação mais forte apareceu justamente na morte por doença cardiovascular, cerca de 15% menor entre as mais gratas. Este é o primeiro grande estudo a sugerir, com dados de verdade, que a gratidão pode caminhar junto com a longevidade.
O corpo agradecido
Um dado desses levanta imediatamente a pergunta que todo médico honesto precisa fazer. Como? Por qual caminho um estado de espírito chegaria até a artéria e o coração? Aqui a ciência ainda engatinha, mas já existem pistas biológicas interessantes, e não por acaso elas também vêm do coração. Em um estudo com 186 pacientes portadores de insuficiência cardíaca em fase inicial, os mais gratos apresentavam menos inflamação no sangue, com níveis mais baixos de marcadores como a proteína C reativa e a interleucina 6. Também dormiam melhor, sentiam menos fadiga e tinham humor mais estável. Um segundo trabalho, este um pequeno ensaio no qual os pacientes foram sorteados para manter um diário de gratidão durante oito semanas, foi além da fotografia e olhou o efeito no tempo. Quem escreveu com regularidade sobre aquilo pelo que era grato terminou com menos marcadores inflamatórios e com melhora na variabilidade da frequência cardíaca, um indicador de equilíbrio do sistema nervoso e de menor risco para o coração.
Note que nenhuma dessas vias é mágica. A gratidão parece agir puxando alavancas que já conhecemos muito bem. Ela melhora o sono, reduz a inflamação crônica de baixo grau, acalma o sistema nervoso, protege contra a depressão e fortalece os laços sociais. Cada uma dessas peças, isoladamente, já é reconhecidamente ligada a viver mais e melhor. A gratidão talvez seja apenas uma forma barata de tocar várias delas ao mesmo tempo.
A ressalva que não pode faltar
E aqui preciso frear o entusiasmo, como faço sempre e como acho que todo médico deveria fazer. O estudo das enfermeiras, por mais elegante que seja, é observacional. Ele mostra que gratidão e longevidade andam juntas, não que uma seja a causa da outra. É perfeitamente possível que exista também o caminho inverso, com pessoas mais saudáveis e de vida mais tranquila tendo, por isso mesmo, mais facilidade de se sentir gratas. Os ajustes estatísticos ajudam a reduzir esse risco, mas não o eliminam. E quando saímos da observação para as intervenções, o terreno fica ainda mais modesto. Uma revisão que reuniu dezenove estudos de práticas de gratidão encontrou resultados bastante irregulares sobre a saúde física. Apenas três de oito desfechos físicos objetivos melhoraram de forma significativa. O efeito mais consistente, curiosamente, apareceu na qualidade do sono. Portanto, temos um sinal promissor e biologicamente plausível, mas ainda não temos a prova definitiva de que cultivar gratidão, por si só, faça viver mais.
O fio que costura tudo
Ainda assim, há um fio que costura essa história com quase tudo o que repito neste site. As intervenções mais poderosas para a longevidade raramente são as mais sofisticadas ou as mais caras. São o exercício, o sono, a comida de verdade, o vínculo com outras pessoas. A gratidão pertence a essa mesma família. Ela não é um remédio, é uma lente, e essa lente parece movimentar exatamente a mesma engrenagem que tanto me interessa como oncologista: menos inflamação, melhor metabolismo, um sistema nervoso mais equilibrado, uma vida social mais rica.
De volta ao consultório
O que faço com isso na prática? Não vou, é claro, prescrever gratidão em receita azul, com dose e posologia, e nem seria capaz disso. Mas passei a dar mais valor a uma conversa que antes eu deixava de lado. Quando percebo, no meio da consulta, uma paciente presa apenas naquilo que perdeu, procuro, com cuidado e sem falsa positividade, ajudá-la a enxergar também o que permanece. Sugiro, a quem se abre para isso, o hábito simples de anotar ao fim do dia três coisas boas que aconteceram. É gratuito, não tem bula, não tem efeito colateral e, no pior dos cenários, a pessoa dorme um pouco melhor. No melhor, talvez esteja ajustando, em silêncio, alguma engrenagem fina lá dentro. Para quem pensa em longevidade, é uma aposta de risco baixíssimo e retorno possivelmente alto.
Termino como comecei, no consultório, lembrando daquelas pacientes que agradecem mesmo no pior dia. Durante anos vi nisso apenas uma bela qualidade humana. Hoje desconfio que seja, também, uma forma discreta de cuidar do próprio corpo. E isso, convenhamos, já é motivo de sobra para mais um pouco de gratidão.
Referências
- Chen Y, Okereke OI, Kim ES, Tiemeier H, Kubzansky LD, VanderWeele TJ.
Gratitude and Mortality Among Older US Female Nurses.
JAMA Psychiatry. 2024;81(10):1030–1038. - Mills PJ, Redwine L, Wilson K, et al.
The Role of Gratitude in Spiritual Well-Being in Asymptomatic Heart Failure Patients.
Spirituality in Clinical Practice. 2015;2(1):5–17. - Redwine LS, Henry BL, Pung MA, et al.
Pilot Randomized Study of a Gratitude Journaling Intervention on Heart Rate Variability and Inflammatory Biomarkers in Patients With Stage B Heart Failure.
Psychosomatic Medicine. 2016;78(6):667–676. - Boggiss AL, Consedine NS, Brenton-Peters JM, Hofman PL, Serlachius AS.
A Systematic Review of Gratitude Interventions: Effects on Physical Health and Health Behaviors.
Journal of Psychosomatic Research. 2020;135:110165.

