Câncer de intestino: exercício e os remédios GLP-1 (Ozempic e Mounjaro) podem impedir a volta do tumor?
Dados apresentados no maior congresso de oncologia do mundo sugerem que os agonistas do GLP-1 podem reduzir a progressão do câncer colorretal.
Encerrei meu artigo anterior sobre os agonistas do GLP-1 com uma frase que escrevi mais por intuição do que por certeza: a história dessas drogas ainda não tinha terminado, e o próximo capítulo prometia ser surpreendente. Não imaginei que ele começaria tão cedo, nem que viria de um território tão distante do emagrecimento e do coração, onde esses medicamentos construíram sua fama.
Em maio e junho deste ano aconteceu em Chicago o Congresso Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), o maior encontro de oncologistas do mundo. Nele, um estudo apresentado de forma quase discreta, em uma sessão de pôsteres identificada pelo número 3143, trouxe uma pergunta que mexe diretamente com a minha rotina de consultório. Será que os agonistas do GLP-1, os mesmos remédios que hoje revolucionam o tratamento da obesidade e protegem o coração, também são capazes de conter o avanço do câncer?
A pergunta que nasce no consultório
A dúvida não é acadêmica. Boa parte das minhas pacientes com câncer de mama, como já contei aqui, convive com sobrepeso, resistência à insulina e inflamação crônica de baixo grau, o mesmo ambiente metabólico que, sabemos há tempos, favorece o ressurgimento de tumores. Se uma droga capaz de desmontar esse ambiente pudesse, ao mesmo tempo, reduzir o risco de o câncer voltar, estaríamos diante de algo raro na medicina: um único tratamento agindo sobre várias engrenagens da doença de uma vez. Foi com essa expectativa que li o resumo do estudo 3143.
O que o estudo mostrou
O trabalho, liderado pelo Dr. Mark Orland e colegas da Cleveland Clinic, partiu de uma base de dados de mundo real, a rede TriNetX, que reúne registros de saúde de milhões de pessoas. Os pesquisadores identificaram 10.225 pacientes com câncer em estágios I a III que começaram a usar um agonista do GLP-1 (liraglutida, dulaglutida, semaglutida, lixisenatida, pramlintida ou tirzepatida) depois do diagnóstico do tumor. Cada um deles foi cuidadosamente pareado com um paciente de características semelhantes que, para tratar o diabetes, usou uma classe diferente de medicamento: os inibidores de DPP-4, conhecidos como gliptinas. A pergunta era direta. Quem usou GLP-1 evoluiu menos para metástase?
A resposta foi sim, e de forma consistente. Em quatro dos sete tipos de câncer analisados (pulmão, mama, fígado e o colorretal, que é o que mais me interessa aqui), os usuários de GLP-1 progrediram bem menos para o estágio IV, aquele em que o tumor se espalha para outros órgãos. No câncer de intestino, a progressão para metástase ocorreu em 13,4% dos pacientes que usaram GLP-1, contra 22,2% dos que usaram gliptinas. Isso representa uma redução relativa de 31% no risco. Havia ainda um achado que reforça a plausibilidade biológica: tumores que expressavam mais o receptor do GLP-1 estavam associados a uma sobrevida melhor. A via do GLP-1 parece ter, de fato, algum papel na maneira como esses tumores se comportam.
Um segundo estudo apresentado no mesmo congresso, também construído sobre a base TriNetX, caminhou na mesma direção. Entre pacientes com câncer colorretal em estágios I a III, o uso de agonistas do GLP-1 associou-se a melhor sobrevida livre de recidiva e a melhor sobrevida global. Dois trabalhos independentes apontando para o mesmo lugar.
A ressalva que não pode faltar
E aqui preciso frear o entusiasmo, como faço sempre e como acho que todo médico honesto deveria fazer. Esses dois estudos são observacionais e retrospectivos. Eles olham para trás, para o que já aconteceu com pacientes que, por decisão clínica, usaram ou não esses remédios. Esse tipo de análise revela associação, não causa e efeito. É perfeitamente possível que os pacientes que receberam GLP-1 diferissem dos demais em algo que os pesquisadores não conseguiram medir: acesso a melhores serviços de saúde, hábitos de vida, o próprio estágio biológico da doença. Os autores sabem disso e são explícitos ao dizer que os achados “merecem validação em ensaios clínicos randomizados”. Um especialista da ASCO resumiu com precisão: os dados são grandes e consistentes o bastante para justificar um estudo randomizado, mas ainda não para mudar a prática.
Faço ainda uma observação que raramente aparece nas manchetes. A tirzepatida, a droga que venho usando com boa resposta em uma paciente, entra nesse estudo diluída dentro do grupo dos agonistas do GLP-1, ao lado de outras cinco moléculas. O trabalho não isola o efeito dela. E, a rigor, a tirzepatida nem é um GLP-1 puro: ela age também sobre o receptor do GIP, um segundo hormônio intestinal. Portanto, quando alguém disser que “a tirzepatida reduz a recidiva do câncer de intestino”, a frase correta e mais modesta é outra: os agonistas do GLP-1 como classe, num estudo observacional, associaram-se a menos progressão da doença, e a tirzepatida fazia parte desse grupo.
A prova que veio da caminhada
Se o dado sobre o GLP-1 é uma promessa a confirmar, o congresso do ano anterior nos deixou uma certeza. E ela não veio de nenhuma molécula sofisticada, mas de algo ao alcance de qualquer paciente: o exercício físico. Na ASCO de 2025, publicado no mesmo dia no New England Journal of Medicine, o estudo CHALLENGE ofereceu aquilo que ainda falta ao GLP-1: a força de um ensaio clínico randomizado de fase 3, o padrão-ouro da medicina.
Foram 889 pacientes com câncer de intestino em estágio III ou estágio II de alto risco, todos já operados e submetidos à quimioterapia. Era exatamente o perfil que mais teme a recidiva, já que cerca de 30% deles verão o tumor voltar. Metade foi sorteada para um programa estruturado de exercício, acompanhada por um consultor de atividade física que funcionava quase como um personal, com uma verdadeira “prescrição de exercício” individual. A outra metade recebeu apenas orientações escritas sobre vida saudável. Depois de quase oito anos de acompanhamento, o grupo que se exercitou teve 28% menos risco de recidiva ou de um novo câncer e 37% menos risco de morrer. Em oito anos, a sobrevida global chegou a 90%, contra 83% no grupo que só recebeu folhetos. O preço foi modesto: um pouco mais de lesões musculares e articulares.
Pare um momento sobre esse número. Não existe medicamento oncológico que consiga uma redução de 37% na mortalidade sem custar uma fortuna e sem arrastar uma longa lista de efeitos colaterais. O exercício conseguiu, e o “efeito colateral” foi ficar mais forte. Para quem pensa em longevidade, é difícil imaginar intervenção com melhor relação entre benefício, risco e custo.
O fio que costura as duas histórias
Há um fio que une as duas frentes, tão diferentes na aparência: as duas apontam para o mesmo alvo, o metabolismo. O exercício melhora a sensibilidade à insulina, reduz a inflamação crônica e modula o sistema imune. Os agonistas do GLP-1 combatem a obesidade, diminuem marcadores inflamatórios e têm efeitos imunomoduladores parecidos. Não me parece acaso que as duas novidades mais quentes da oncologia preventiva recente apontem para a mesma ideia que repito neste site: um metabolismo saudável é uma das defesas mais poderosas que o corpo tem contra o câncer e contra o envelhecimento. O tumor, no fundo, é também uma doença metabólica.
De volta ao consultório
O que faço com tudo isso na prática? Por enquanto, nada de radical, e essa contenção é deliberada. Não vou prescrever tirzepatida a ninguém com o objetivo de prevenir a volta de um câncer, porque essa indicação simplesmente não existe e a ciência ainda não a sustenta. Mas, quando uma paciente com sobrepeso, resistência à insulina e história de câncer tem indicação metabólica legítima para um GLP-1, esses dados tornam a conversa mais rica e me deixam um pouco mais tranquilo com a escolha. Sobre o exercício, porém, minha postura mudou de vez. Deixei de tratá-lo como um conselho genérico de fim de consulta e passei a prescrevê-lo com o mesmo rigor de um medicamento: dose, progressão, acompanhamento. É isso que ele merece.
Uma certeza ao alcance de todos, e um reforço para quem precisa
Se há uma conclusão sólida a tirar de tudo isso, ela é simples ao ponto de incomodar. A intervenção com a evidência mais forte contra a volta do câncer de intestino não custa quase nada, não exige receita e está ao alcance de praticamente todo mundo: é o exercício físico. Barato, disponível, sem patente e sem bula. Do ponto de vista da longevidade, é difícil pedir mais.
E, no entanto, sei por experiência de consultório que a teoria esbarra na vida real. Nem todo paciente consegue manter uma rotina de exercícios de forma constante, e nem todos se dispõem a isso. Uns por limitações físicas, outros por falta de tempo, muitos simplesmente porque mudar hábitos é uma das coisas mais difíceis que existem. É nesse espaço, entre o que sabemos que funciona e o que as pessoas de fato conseguem fazer, que os agonistas do GLP-1 podem vir a ter um papel. Não como substitutos do exercício, algo que os dados não autorizam, mas como um possível reforço para quem, apesar do esforço ou por circunstâncias da vida, não alcança sozinho o benefício que o movimento oferece.
É cedo para afirmar que essas drogas cumprirão essa promessa no câncer. Precisamos dos ensaios randomizados. Mas a direção me parece clara. De um lado, um hábito antigo, gratuito e comprovado, que deveríamos prescrever com muito mais convicção. Do outro, uma ferramenta nova e promissora, para quando o hábito, sozinho, não for suficiente.
Referências
- Orland MD, Mandala A, Unlu S, et al.
Can GLP-1 Receptor Agonists Mitigate Cancer Progression? A Propensity-Matched Analysis Across Seven Solid Tumors.
J Clin Oncol. 2026;44(16_suppl):3143. - Kinsey EN, Tatum KL, Velez-Mejia C, et al.
Relationship Between GLP-1 Receptor Agonists on Cancer Recurrence and Survival of Patients With Stage I–III Colorectal Cancer: A Retrospective Cohort Study Using the TriNetX Database.
J Clin Oncol. 2026;44(16_suppl):3636. - Courneya KS, Vardy JL, O’Callaghan CJ, et al.; CHALLENGE Investigators.
Structured Exercise After Adjuvant Chemotherapy for Colon Cancer.
N Engl J Med. 2025;393(1):13–25.

