Saúde financeira e longevidade: do dólar aos cypherpunks e ao Bitcoin

Por Dr. Volney Soares Lima
Publicado em 3 set, 2026
Saúde financeira também faz parte da longevidade. Uma reflexão sobre investimentos, renda fixa, a história do dólar, os cypherpunks e o surgimento do Bitcoin.
Saúde financeira e longevidade: do dólar aos cypherpunks e ao Bitcoin

A maior parte dos pacientes idosos que eu atendo têm sérios problemas financeiros. Muitos dependem dos filhos, não têm recursos para comprar bons medicamentos e precisam continuar trabalhando para complementar a aposentadoria. Quando uma doença aparece, ainda precisam lidar com os custos do tratamento.

É realmente uma situação muito triste.

Chegar depois dos 70 anos com saúde física, mental e financeira também faz parte, na minha visão, de um envelhecimento saudável.

Falamos muito sobre alimentação, atividade física, sono, prevenção de doenças e controle do estresse. Tudo isso é fundamental. Mas existe outra variável sobre a qual falamos pouco quando pensamos em longevidade: dinheiro.

Não estou falando de ficar rico.

Estou falando de chegar à velhice com tranquilidade suficiente para não depender financeiramente dos filhos, poder arcar com os custos de um bom tratamento, viajar, ajudar a família e continuar vivendo boas experiências.

Mas por que tantos brasileiros chegam tão despreparados financeiramente à velhice?

Acredito que seja um problema multifatorial: baixo nível de educação financeira da nossa sociedade, falta de planejamento, inflação e baixa qualidade da nossa moeda.

Para escapar desse destino precisamos nos preparar, aprender a investir e, principalmente, começar cedo.

Vou contar algumas coisas que aprendi ao longo dos anos e que passaram a fazer sentido para mim. Não são recomendações de investimento. São apenas minhas opiniões e a maneira como eu enxergo a construção de patrimônio no longo prazo.

Primeiro, a reserva de emergência

Antes de qualquer coisa, considero fundamental ter uma reserva de emergência: alguma aplicação bastante líquida e capaz de cobrir vários meses das despesas obrigatórias.

Não vou gastar muito tempo com isso. Existe bastante material de qualidade sobre reserva de emergência.

Depois dela, porém, vem uma parte em que minha forma de pensar provavelmente se distancia da maioria dos investidores brasileiros.

Por que eu não gosto de renda fixa

Eu não gosto de renda fixa como estratégia de investimento de longo prazo.

Sei que essa posição contraria boa parte do que tradicionalmente se ensina sobre investimentos no Brasil, mas tenho alguns motivos para pensar assim:

  • O real é uma moeda fraca e inflacionária.
  • Nossa moeda perdeu muito valor desde a sua criação.
  • A inflação oficial nem sempre representa a inflação que sentimos no dia a dia.
  • A quantidade de moeda em circulação aumenta ao longo do tempo.
  • Quando compramos um título público, estamos emprestando dinheiro ao governo, que no futuro precisará pagar essa dívida com recursos arrecadados da própria sociedade ou com novas emissões de dívida.

Esses são alguns dos motivos pelos quais eu prefiro outros tipos de ativos quando penso na construção de patrimônio para as próximas décadas.

Isso não significa que renda fixa seja ruim ou que outras pessoas devam pensar da mesma maneira. É simplesmente a forma como eu enxergo o assunto.

E foi interessante encontrar um trabalho acadêmico que questiona justamente uma das ideias mais tradicionais do planejamento financeiro.

Beyond the Status Quo

O trabalho Beyond the Status Quo: A Critical Assessment of Lifecycle Investment Advice, de Anarkulova, Cederburg e O’Doherty, traz uma discussão muito interessante sobre esse assunto.

Os autores analisaram retornos históricos internacionais e questionaram uma recomendação quase universal no planejamento financeiro: diminuir a exposição a ações e aumentar progressivamente a renda fixa à medida que envelhecemos.

As conclusões são provocativas.

No modelo estudado pelos autores, a alocação considerada ótima permaneceu próxima de um terço em ações do próprio país e dois terços em ações internacionais, independentemente da idade, sem uma participação relevante de renda fixa.

Isso não significa, evidentemente, que todos devam montar uma carteira dessa forma. O trabalho utiliza dados históricos e simulações e não existe nenhuma garantia de que o futuro repetirá o passado. O Brasil não fez parte da avaliação dos autores.

Mas gosto desse trabalho porque ele faz algo que considero importante: questiona uma ideia que durante muito tempo foi tratada quase como verdade absoluta.

E quando começamos a questionar a maneira tradicional de pensar sobre dinheiro, chegamos a uma pergunta ainda mais básica.

Afinal, o que é dinheiro?

A história do dólar

criação do dolar

Para entender essa história precisamos voltar um pouco no tempo.

Em 1792, o Coinage Act estabeleceu o sistema monetário americano e definiu moedas de ouro e prata, incluindo o dólar de prata.

Durante boa parte da história dos Estados Unidos existiu uma relação entre o sistema monetário e os metais preciosos.

Em 1900, o Gold Standard Act consolidou o padrão ouro.

Essa relação começou a mudar durante o século XX.

Depois da Segunda Guerra Mundial surgiu o sistema de Bretton Woods. O dólar passou a ocupar o centro do sistema monetário internacional. As outras moedas mantinham taxas de câmbio vinculadas ao dólar e o dólar permanecia conversível em ouro para os governos estrangeiros, ao preço de 35 dólares por onça.

Até que, em 1971, Richard Nixon suspendeu essa conversibilidade.

A partir dali, o sistema monetário internacional começou a abandonar definitivamente sua ligação com o ouro.

E o dólar continuou sendo dinheiro.

Continuou sendo usado para comprar produtos, pagar salários, guardar patrimônio e realizar transações internacionais.

Isso nos leva a uma pergunta interessante: por que alguma coisa tem valor como dinheiro?

Reserva de valor ou meio de troca?

Foi um artigo de Roy Sheinfeld, fundador da Breez, que me chamou a atenção para essa discussão.

Normalmente dividimos as funções do dinheiro em categorias. Uma delas é funcionar como meio de troca. Outra é funcionar como reserva de valor.

Sheinfeld questiona até que ponto essa separação realmente faz sentido.

Uma coisa consegue guardar valor porque existe a expectativa de que outras pessoas continuarão aceitando aquilo no futuro. Nesse sentido, reserva de valor e meio de troca talvez estejam mais próximos do que parecem.

O ouro é um bom exemplo. Ao longo da história, além de escasso e durável, pôde ser dividido, transportado, cunhado e trocado.

Essa discussão fica ainda mais interessante quando chegamos a uma história que começou muito antes do Bitcoin.

A história dos cypherpunks.

Antes do Bitcoin vieram os cypherpunks

Nas décadas de 1980 e 1990, um grupo de criptógrafos, matemáticos, programadores e defensores da privacidade começou a discutir como seria a liberdade individual em um mundo cada vez mais digital.

Eles ficaram conhecidos como cypherpunks.

A ideia central era que a criptografia poderia permitir que indivíduos protegessem sua privacidade sem depender da autorização de governos ou grandes instituições.

E, naturalmente, uma pergunta apareceu.

Seria possível fazer isso com dinheiro?

Seria possível criar um dinheiro verdadeiramente digital que pudesse circular pela internet sem precisar de um banco, empresa ou governo controlando as transações?

Várias pessoas tentaram.

David Chaum trabalhou com sistemas de dinheiro digital ainda nos anos 1980.

Adam Back criou o Hashcash.

Wei Dai propôs o b-money.

As peças começavam a aparecer, mas havia um problema difícil de resolver.

Dinheiro físico não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Se entrego uma nota de cem reais para alguém, deixo de possuir aquela nota.

Mas informação digital pode ser copiada.

Como impedir alguém de gastar a mesma moeda digital duas vezes sem colocar uma instituição no meio da operação para controlar quem é o verdadeiro proprietário?

Até que, em 2008, apareceu Satoshi Nakamoto.

Satoshi Nakamoto e as nove páginas que criaram o Bitcoin

Em 31 de outubro de 2008, alguém usando o nome Satoshi Nakamoto enviou para uma lista de discussão de criptografia um trabalho com apenas nove páginas.

O título era Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System.

Satoshi propunha um sistema de dinheiro eletrônico no qual duas pessoas poderiam realizar uma transação diretamente entre si sem precisar de uma instituição financeira no meio da operação.

Não sabemos quem era Satoshi Nakamoto.

Não sabemos sequer se era uma única pessoa.

Mas sabemos que sua proposta não apareceu do nada.

O próprio trabalho cita ideias desenvolvidas anteriormente, entre elas o b-money de Wei Dai e o Hashcash de Adam Back.

Satoshi juntou várias peças que já existiam e propôs uma solução para o problema do gasto duplo utilizando uma rede descentralizada e prova de trabalho.

Poucos meses depois, a ideia saiu do papel.

O Genesis Block

Em 3 de janeiro de 2009 foi minerado o primeiro bloco da rede Bitcoin.

O Genesis Block.

Dentro dele, Satoshi deixou gravada uma manchete publicada naquele mesmo dia pelo jornal britânico The Times. Ela dizia que o ministro das Finanças britânico estava próximo de um segundo resgate aos bancos.

O mundo vivia as consequências da grande crise financeira de 2008.

Não sabemos exatamente por que Satoshi escolheu aquela manchete. Ela servia, entre outras coisas, como uma referência à data em que o bloco foi criado.

Mas é uma coincidência histórica interessante.

No meio de uma das maiores crises financeiras das últimas décadas surgia uma tentativa de criar dinheiro digital que não dependia de uma instituição financeira central para funcionar.

O que havia de diferente no Bitcoin?

mineirando bitcoin

Uma das características mais interessantes do Bitcoin está na maneira como sua emissão foi definida.

As regras fazem parte do próprio protocolo. Novos bitcoins são criados segundo regras conhecidas previamente e sua quantidade máxima é limitada.

Não existe um banco central que possa decidir aumentar sua oferta.

Isso cria uma experiência monetária bastante diferente do sistema de moedas fiduciárias que utilizamos hoje.

Segundo Roy Sheinfeld, o Bitcoin pode cumprir justamente aquelas duas funções do dinheiro: ser uma reserva de valor e, ao mesmo tempo, um meio de troca.

Eu concordo com essa visão.

Mas não quero convencer ninguém a comprar Bitcoin.

Meu conselho é outro: estudem.

Estudem sua história, entendam a tecnologia, conheçam os cypherpunks e a filosofia que existia antes mesmo de Satoshi Nakamoto publicar seu trabalho.

Depois disso, cada um tira suas próprias conclusões.

Não terceirize suas convicções

Outra coisa importante que aprendi ao longo desses anos é não terceirizar minhas convicções quando o assunto é investimento.

Não confio cegamente em imprensa, influenciadores, corretoras, bancos ou especialistas.

E você também não deveria confiar cegamente no que está lendo aqui.

Estude. Leia opiniões contrárias. Entenda os ativos antes de investir e forme suas próprias convicções.

Tenha também horizonte de longo prazo e paciência.

Mercados sobem e descem. Narrativas aparecem e desaparecem. No longo prazo, paciência talvez seja uma das ferramentas mais importantes de um investidor.

O que dinheiro tem a ver com longevidade?

casal de férias

Para mim, bastante.

Chegar bem aos 70 ou 80 anos não significa apenas estar saudável. Significa também ter tranquilidade para viver essa fase da vida.

Dinheiro não é o objetivo final. É uma ferramenta.

Uma boa situação financeira permite escolher um tratamento sem pensar primeiro no preço, viajar, ajudar os filhos, viver boas experiências e não precisar continuar trabalhando simplesmente porque a aposentadoria não é suficiente.

É por isso que considero saúde financeira parte da longevidade.

Começar cedo, investir com regularidade, estudar o que estamos fazendo e ter paciência pode fazer uma enorme diferença algumas décadas depois.

No final, não queremos apenas viver mais.

Queremos chegar lá bem. E com liberdade para aproveitar o tempo que conquistamos.

 

Referências

  1. Anarkulova A, Cederburg S, O’Doherty MS. Beyond the Status Quo: A Critical Assessment of Lifecycle Investment Advice. SSRN. Publicado inicialmente em 2023. Versão revisada em 10 de julho de 2025. Working paper.
  2. Sheinfeld R. Bitcoin’s False Dichotomy Between SoV And MoE. Bitcoin Magazine. 16 de outubro de 2024. Artigo de opinião. O autor é fundador da Breez, empresa que desenvolve soluções sobre a Lightning Network.
  3. Nakamoto S. Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System. 31 de outubro de 2008.

Este texto não constitui recomendação médica e representa a opinião do autor com base nos artigos científicos citados nas referências.
Nenhuma decisão sobre tratamento, medicamentos ou exercício deve ser tomada sem acompanhamento médico.
Utilizamos ferramentas de IA para levantamento bibliografico, correção ortográfica e formatação dos artigos.

Autor

Dr. Volney Soares

Dr. Volney Soares Lima

CRM-MG 33029 | Oncologia Clínica RQE 15235

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